Filho da floresta, água e madeira de Thiago de Mello

Filho da floresta, água e madeira vão na luz dos meus olhos, e explicam este jeito meu de amar as estrelas e de carregar nos ombros a esperança. Um lanho injusto, lama na madeira, a água forte de infância chega e lava. Me fiz gente no meio de madeira, as achas encharcadas, lenha verde, minha mãe reclamava da fumaça. Na verdade abri os olhos vendo madeira, o belo madeirame de itaúba da casa do meu avô no Bom Socorro, onde meu pai nasceu e onde eu também nasci. Fui o último a ver a casa erguida ainda, íntegros os esteios se inclinavam, morada de morcegos e cupins. Até que desabada pelas águas de muitas cheias, a casa se afogou num silêncio de limo, folhas, telhas. Mas a casa só morreu definitivamente quando ruíram os esteios da memória de meu pai, neste verão dos seus noventa anos. Durante mais de meio século, sem voltar ao lugar onde nasceu, a casa permaneceu erguida em sua lembrança, as janelas abertas para as manhãs do Paraná do Ramos, a escada de pau-d’arco que ele continuava a descer para pisar o capim orvalhado e caminhar correndo pelo campo geral coberto de mungubeiras até a beira florida do Lago Grande onde as mãos adolescentes aprendiam os segredos dos úberes das vacas. Para onde ia, meu pai levava a casa e levava a rede armada entre acariquaras, onde, embalados pela surdina dos carapanãs, ele e minha mãe se abraçavam, cobertos por um céu insuportavelmente estrelado. Uma noite, nós dois sozinhos, num silêncio hoje quase impossível nos modernos frangalhos de Manaus, meu pai me perguntou se eu me lembrava de um barulho no mato que ele ouviu de manhãzinha clara ele chegando no Bom Socorro aceso na memória, depois de muito remo e tantas águas. Nada lhe respondi. Fiquei ouvindo meu pai avançar entre as mangueiras na direção daquele baque, aquele baque seco de ferro, aquele canto de ferro na madeira — era a tua mãe, os cabelos no sol, era a Maria, o machado brandindo e abrindo em achas um pau mulato azul, duro de bronze, batida pelo vento, ela sozinha no meio da floresta. Todas essas coisas ressurgiam e de repente lhe sumiam na memória, enquanto a casa ruína se fazia no abandono voraz, capim-agulha, e o antigo cacaual desenganado dava seu fruto ao grito dos macacos e aos papagaios pândegas de sol. Enquanto minha avó Safira, solitária, última habitante real da casa, acordava de madrugada para esperar uma canoa que não chegaria nunca mais. Safira pedra das águas, que me dava a bênção como quem joga o anzol pra puxar um jaraqui na poronga, sempre vestida de escuro a voz rouca disfarçando uma ternura de estrelas no amanhecer do Andirá. Filho da floresta, água e madeira, voltei para ajudar na construção do morada futura. Raça de âmagos, um dia chegarão as proas claras para os verdes livrar da servidão.
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